Um dos espaços mais nobres e importantes do Teatro Deodoro estava refém do descaso e do esquecimento, apesar de sua localização estratégica, na área frontal do prédio no primeiro andar e que sempre recebeu recitais de pianos, poesias e demais atividades artísticas. Estamos falando do Salão Nobre, onde no passado funcionaram a Biblioteca Pública, a Câmara dos Vereadores de Maceió, o Museu da Imagem e do Som de Alagoas e a Justiça Federal. Ali também aconteciam bailes oficiais da Intendência Municipal (hoje, Prefeitura de Maceió), os banquetes e recepções do Governo do Estado, dentre os quais foram oferecidos aos presidentes da República Nilo Peçanha e Washington Luiz.
Por isso recebeu, por parte do Governo do Estado, uma atenção especial, dentro da obra maior do Teatro Deodoro. Foram investidos recursos na ordem de R$ 436.000,00 (quatrocentos e trinta e seis mil reais), dentre os serviços realizados nesta reforma do Teatro Deodoro, está a restauração do Salão Nobre, que por anos sofreu com o abandono que quase comprometeu sua beleza.
A obra licitada ficou sob a responsabilidade da empresa A-Quatro Construções, que também restaurou as igrejas de Marechal Deodoro, Penedo e Porto Calvo, e que tem em seus quadros o restaurador Mário Swenson, um especialista recifense formado pelo Centro de Conservação da Escola de Belas Artes de Belo Horizonte e que vem realizando o trabalho de restauração do Salão Nobre. Entre os projetos que ele carrega no currículo estão as obras de recuperação da Igreja do Amparo, de Olinda (PE), da Igreja Matriz São Domingos Gusmão, em Araxá (MG), além de igrejas em Penedo, Marechal Deodoro e Porto Calvo.
Para entender essa restauração, conversamos com o restaurador Mário Swenson.
- Como se deu esse trabalho de restauração do Salão Nobre do Teatro Deodoro?
Iniciamos os trabalhos de restauração do Salão Nobre com diversas prospecções nas paredes para encontrarmos as pinturas originais que estavam sob outras pinturas, aplicadas durante o tempo. Nesse trabalho não utilizamos nenhum tipo de solvente, pois poderiam danificar as pinturas originais. Encontramos vários elementos que comprovavam várias pinturas sobre as paredes. Posteriormente comprovamos, através de fotos antigas e de registros históricos, que várias pinturas encontradas tanto no Salão Nobre como boca de cena do teatro, eram do artista italiano Orestes Sercelli, que fora contratado para esse serviço. Definimos o nosso trabalho numa reprodução da pintura que abrangia uma parede inteira e fizemos reproduções nas outras paredes onde não mais existiam essas pinturas. A nossa referência foi essa pintura existente, e foi colocada para criar uma unidade estética em seu interior. Nas pinturas de Orestes Sercelli, que através de fotografias antigas, fizemos uma intervenção pontual nas áreas que existiam perdas e no restante mantivemos intacta toda a obra presente no Salão Nobre.
- O que é mais difícil num trabalho como esse?
Na verdade, o que é mais lento é a remoção das pinturas para não danificar as que estão por baixo. É feito com bisturi..., e até contamos com a ajuda de um soprador-térmico, pois não pudemos usar solvente porque vimos que iria danificá-las. Tudo feito por meio de prospecções de cores. Fizemos um resgate de uma pintura que estava por baixo da pintura visível.
- Quantas pessoas e que técnicas foram utilizadas para esta restauração?
Minha equipe que está executando este trabalho no Salão Nobre é formada por 9 pessoas, de estados como Pernambuco, Sergipe e Alagoas que me acompanham há alguns anos, e estamos trabalhando há quase 4 meses. Como o cronograma que tivemos foi muito curto (120 dias), utilizamos técnicas de decalque com papel seda e lápis grafite, para acelerar nosso trabalho de reprodução das pinturas. Na pintura da parede reproduzimos através de tela de silk-screen, porque esse trabalho é rápido e resultado extremamente satisfatório por termos uma pintura limpa e completa.
- Há indícios de outras intervenções no Salão Nobre realizadas no passado?
Já houve outras intervenções anteriores. Umas que comprometeram a sua estrutura física das pinturas e outras que tentaram resgatar a originalidade. Nós nos propomos a regatar suas formas originais com bastante cuidado e critérios.
- É diferente trabalhar num prédio como o Teatro Deodoro em relação a trabalhar em igrejas, por exemplo?
O Teatro Deodoro é uma marco na cidade de Maceió e de toda a região que representa um estilo visual de época que era o eclético, como neo-clássico, o romântico e até Art Nevau que se encaixa na época de 1910, além de sua importância histórica e arquitetônica que foi concebido pelo arquiteto italiano Luigi Lucarinni, que também foi o responsável por outros prédios históricos aqui mesmo em Alagoas. Por isso tem que ser preservado. O Deodoro nos oferece a oportunidade de mostrar ao público o que se está fazendo no trabalho de restauração com bastante critério, que neste caso teve todo um acompanhamento e aprovação de órgãos competentes e responsáveis como o Pró-Memória, da Secretaria de Cultura, e o SERVEAL, que tem esse envolvimento com a preservação. No Salão Nobre pudemos comprovar todo o ecletismo que predominava na época da construção do teatro, como a escaiola que é uma reprodução do mármore, além das próprias pinturas de Orestes Sercelli.
- O fato do Teatro Deodoro ser tombado pelo Estado, muda em que num trabalho como esse?
O que muda é que num monumento tombado como o Teatro Deodoro, ele tem que ser preservado ... e impede que façam mudanças arquitetônicas aleatórias... sem critérios, pois suas características originais, com que ele foi concebido, tem de ser mantidas. O trabalho que está sendo realizado no Teatro Deodoro é importantíssimo e está sendo executado por empresas e pessoas sérias... extremamente necessário e criterioso. O trabalho na restauração do Teatro Deodoro é de alto nível e as pessoas precisam saber o que está sendo feito aqui.
Para o Diretor-Presidente da Diretoria de Teatros do Estado de Alagoas (DITEAL) responsável pelos Teatros Deodoro e de Arena Sérgio Cardoso, Juarez Gomes de Barros, essa restauração tem um componente particular: “É um trabalho primoroso... o que o Mário Swenson e sua equipe estão fazendo no Salão Nobre é pura arte e estamos felizes de poder devolvê-lo ao alagoano com toda a sua riqueza arquitetônica”, finalizou.
A obra de restauro do Salão Nobre terminou no início de julho e está inserida num contexto proveniente de um processo nacional, com a noção da necessidade de restauração de monumentos como o Teatro Deodoro que representa muito para a história de Maceió, bem como para Alagoas e para o país, o que por si só justifica sua preservação e restauração, pelo seu valor histórico e cultural e que em breve será devolvido ao alagoano.
A DITEAL garante que em 15 de novembro deste ano, quando o Teatro Deodoro comemorará 100 anos, o Teatro estará reaberto e em pleno funcionamento com uma vasta programação comemorativa e no mesmo mês sediará o Encontro dos Teatros Monumentos do Brasil, dentro das comemorações de seu centenário. |